Seu navegador não suporta java script, alguns recursos estarão limitados. [Artigo] ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕES - N5 Treinamentos

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Algumas empresas já compreenderam que o desafio para se desenvolver uma cultura considerada ética vai além de normas e fiscalização. Existem dois fatores cruciais que fogem do controle das organizações. O primeiro é que o manual de conduta e regimento interno, em hipótese alguma conseguem normatizar todas as situações que por ventura venham ocorrer nas relações profissionais. O segundo é a dificuldade em inibir os atos faltosos pela incapacidade de garantir uma vigilância contínua e absoluta. Como resolver isso? Urge então a necessidade de se trazer os colaboradores para o centro do debate, debate este que avalia as condutas consideradas morais, e ir mais além, fortalecer os argumentos pela capacitação dos agentes sociais, contratando instrutores para ampliar os conceitos de retidão e justiça, e mais, provocar reflexões pela prática de uma análise crítica das condutas em situações do dia a dia das empresas. Afinal, cada colaborador, independente da função ocupada, possui um tipo de autonomia e, por consequência, certa responsabilidade.

O tema Ética está sob os holofotes. Seja na internet ou eventos empresariais, nunca os filósofos tiveram tanta visibilidade. Talvez o motivo de tanta demanda esteja relacionado ao fato de estarmos vivendo mudanças estruturais e não mais complementares. O embate cultural entre conservadores e progressistas, novas tecnologias e profissões, dentre outras, são mudanças que desestabilizaram as relações. Nunca foi tão necessário discutir a ética nas relações profissionais.

Ética diz respeito ao impacto que agentes sociais provocam um sobre os outros em função de suas decisões e ações. Exemplificando: ao decidir e ao agir, o agente respeita os interesses dos outros ou os desrespeita, os beneficia ou os prejudica. Ética é uma disciplina que estuda os fatos morais. O conceito de moral será apresentado mais adiante.

Empresários e líderes frustram-se com o descumprimento por parte dos empregados com o que foi pactuado na relação de emprego. Não obstante, a recíproca é verdadeira por parte dos empregados. O objetivo mais comum ao se trazer o tema Ética para o ambiente organizacional é o de contribuir para que os times de trabalho decidam e atuem baseados num código moral pré-definido – um objetivo nada fácil.

É impossível para as empresas manterem uma rotina de fiscalização que iniba em cem por cento a prática de atos faltosos. As benesses privadas que um smartphone proporciona dentro do horário de expediente é um exemplo disso. Existe um universo de possíveis ações que estão fora do alcance dos líderes, das câmeras de segurança ou qualquer outro sistema de vigilância. Por outro lado, vale ressaltar que, se não existisse a liberdade de escolhermos as nossas condutas, o estudo da Ética seria desnecessário. Uma acintosa imposição de regras, uma vigilância opressora, seguida de punições severas já foram métodos bastante utilizados. No entanto, a ciência do comportamento organizacional já comprovou que esse modelo de gestão rígida não contribui para a eficácia organizacional, e nem para a retenção de talentos em pleno século XXI. 

A Ética estuda fatos que afetam objetivamente os outros para o bem ou para o mal, onde o bem tem relação com efeitos positivos. Assim sendo, fatos morais são condutas que espelham o posicionamento da maioria em determinado tempo e espaço. As condutas, quando julgadas, podem ser classificadas em morais, amorais e imorais. Exemplos no quadro a seguir:

  amoral moral imoral

Avaliar se uma conduta é positiva, neutra ou negativa é um aspecto intrínseco do exercício da Ética. Assim sendo, surge a necessidade de uma análise do processo de julgamento, ou seja, avaliar mais do que a conduta em si, avaliar também os critérios que foram utilizados para definir se o veredicto foi justo ou injusto. Neste contexto, impossível não resgatarmos os mais importantes tratados filosóficos, começando pelo período Socrático, passando pelo medieval, até os dias atuais. Síntese que será abordada mais adiante.

Toda a análise apresentada até agora se baseia na premissa de que o agente que está prestes a tomar uma decisão possui o discernimento necessário para avaliar suas condutas. Que saberá utilizar um método que o ajude a ser justo – ledo engano. Faz-se necessária a inclusão de outra variável que afeta negativamente o julgamento das condutas. Existem dois sistemas morais em cada agente social, ou seja, uma hibridez de sistemas que, direta ou indiretamente afeta todos os nossos julgamentos. Um primeiro de caráter oficial e público – sistema moral da integridade, e um segundo de caráter clandestino e privado – sistema moral do oportunismo. O quadro a seguir mostra as características marcantes de cada sistema.

 hibridez moral

É evidente que a conduta com características Altruístas e Universalistas terá mais chance de ser validada como moral. Entretanto, existem casos onde a situação não consegue delimitar claramente as características da conduta, por consequência, dificultando a escolha justa. No contexto organizacional, as condutas erradas cometidas por indivíduos ou grupos são autoanalisadas com certa permissividade e com baixo rigor moral. Por outro lado, quando o comportamento é de um terceiro, os mesmos que fizeram “vista grossa” para si, agora agem como bastiões da moral e da integridade, apontando casos de corrupção e emitindo veredictos, vedando inclusive o direito de ampla defesa da outra parte.

Uma evidência da hibridez moral nos indivíduos é o fato de bradarmos contra a corrupção ao mesmo tempo que manipulamos as informações para pagar menos imposto de renda. Em outras palavras, é a consonância com a frase “roubar pouco, pode”. Uma premissa de que seria justo roubar pouco e injusto roubar muito. Neste ponto, talvez urja a necessidade de delinearmos o conceito de justiça.

Justiça, no dicionário, é a correspondência com aquilo que é considerado justo, que tem a ver com a racionalidade, equidade, imparcialidade, legitimidade, veracidade e necessidade. Essa quantidade de diretrizes, que fazem referência ao que é justo, não facilitam a vida de quem toma decisões no ambiente organizacional. Fundamentar a decisão do que é justo é um desafio enfrentado deste a antiguidade. Segundo Platão, justiça é dar a cada um aquilo que lhe é próprio. Para Aristóteles, justiça é a excelência moral virtuosa que advém do ato de fazer o bem. Para além de Platão e Aristóteles, nos dias atuais, destaca-se uma análise das condutas éticas sobre dois aspectos fundamentais, a saber:

 eticaconsequencialista eticaconviccao

Em qualquer contexto, essas duas premissas são as que mais se contrapõe no processo de tomada de decisão nos dias atuais. Entretanto, dependendo da situação, é impossível determinar qual conduta pode ser considerada como a mais moral e justa. Vejamos um exemplo:

Nas eleições brasileiras de 2018, pessoas comuns nas redes sociais protagonizaram debates homéricos sobre o chamado “voto útil” para os presidenciáveis. De um lado Bolsonaro do PSL e do outro Amoedo do Novo. Talvez os internautas não soubessem, mas as premissas que embasavam as discussões eram somente duas: votar pensando na consequência, evitando assim um mal maior; ou votar orientado por valores e princípios, independente da consequência. Com a apuração dos votos do primeiro turno das eleições, foi observado que as duas premissas obtiveram sucesso. O candidato Jair Bolsonaro, beneficiado pelo “voto útil”, quase ganhou no primeiro turno (ética consequencialista). Já o candidato João Amoedo, surpreendeu por superar outros candidatos que estavam na sua dianteira (ética da convicção). 

Outro exemplo que ilustra a complexidade imposta por essas premissas é o caso proposto pela filósofa britânica Philippa Foot em 1967, ela apresentou ao mundo um dilema filosófico chamado  Dilema do bonde - The trolley problem, o objetivo foi avaliar o comportamento de indivíduos diante de situações emocionalmente conflitantes. Um bonde está fora de controle. Em seu caminho, cinco pessoas amarradas no trilho serão atropeladas e mortas. Felizmente, é possível puxar uma alavanca que encaminhará o bonde para um percurso diferente, mas ali, por desgraça, se encontra outra pessoa também atada ao trilho. Você não conhece nenhuma destas pessoas. Puxaria a alavanca, sim ou não?  Ao responder, avalie se sua resposta atende à premissa da Ética consequencialista ou Ética da convicção. 

Trolley problem

Ética não é uma palavra que pode ser usada como adjetivo ou uma competência. O estudo da Ética quando orientado ao papel profissional é chamado de Deontologia. Diante do exposto, agora é esperado que esteja compreendida a complexidade do tema: Ética nas organizações. Nas empresas, quando duas ou mais pessoas estão discutindo sobre qual decisão tomar, elas estão praticando Ética. Deste modo, é muito importante o envolvimento de todos os agentes, seja na elaboração de um Código de Conduta ou até na participação de um Comitê de Ética da própria empresa. As discussões podem abranger todos os departamentos e todos os processos da organização. Afinal, Ética é a inteligência à serviço da boa convivência. Boa convivência gera produtividade e produtividade gera lucro. 

Referência Bibliográfica principal: SROUR, Robert Henry. Poder, Cultura e Ética nas Organizações. 3 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

Autor: Douglas Noleto F.

Instagram:  @douglasnoletooficial

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 Douglas Noleto
Consultor e Palestrante em empresas do setor privado e público; Administrador de empresas, Esp. em Gestão de Pessoas e Marketing (PUC-GO); Diretor da N5 Treinamentos; Experiência de 20 anos na área de RH; professor em pós-graduações; Coach; Pesquisador e Instrutor de Eneagrama; Grafólogo; Especialista em tecnologias para consultoria em RH.
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